Vice-PGR defende cooperação internacional desde o início da investigação e persecução patrimonial contra o crime organizado
Na assembleia da associação ibero-americana de Ministérios Públicos, em Cusco, Hindenburgo Chateaubriand apresentou as equipes conjuntas de investigação e o novo grupo nacional do MPF para enfrentamento de organizações criminosas
MPF · Procuradoria-Geral da República
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publicado em 01/10/2026
Reprodução MPF
Resumo
O vice-procurador-geral da República, Hindenburgo Chateaubriand, defendeu na 33ª Assembleia-Geral Ordinária da Associação Ibero-Americana de Ministérios Públicos, realizada em Cusco, no Peru, com representantes de 22 países, que a cooperação internacional deixe de ser reativa, acionada diante de necessidade pontual, e passe a integrar desde o início o planejamento e a estratégia investigativa. A segunda frente apresentada foi a persecução patrimonial, com rastreio, bloqueio e repatriação de bens e valores.
Contexto
O argumento parte de uma constatação operacional: com comunicação instantânea, ativos virtuais, plataformas digitais e formas sofisticadas de movimentação financeira, redes criminosas operam em múltiplas jurisdições ao mesmo tempo, cometendo crimes em um país e ocultando ativos em outros, por meio de estruturas societárias complexas, contas, bens e investimentos espalhados. O instrumento apontado como resposta mais efetiva são as Equipes Conjuntas de Investigação, que reúnem membros de Ministérios Públicos de vários países para troca de informações, provas, estratégias e dados de inteligência em tempo real. O Brasil participou de oito delas desde 2019, e uma, formada com a Itália, resultou na Operação Eredità, que desarticulou grupo ligado à máfia italiana que traficava droga da América do Sul para a Europa.
Argumentos
- Vice-PGR: nenhum Ministério Público enfrenta sozinho o crime organizado, porque as redes operam simultaneamente em várias jurisdições.
- Vice-PGR: o pagamento, a circulação e a ocultação de recursos são o que sustenta a atividade criminosa, e por isso a persecução patrimonial é prioritária.
- MPF: as equipes conjuntas de investigação já produziram resultado concreto, como a Operação Eredità, com a Itália.
Fundamento
A tese institucional é que a criminalidade organizada é, em grande medida, atividade econômica, cujo funcionamento depende da geração, circulação, ocultação e reinvestimento de recursos ilícitos. Daí a prioridade de seguir o fluxo do dinheiro, com equipes multidisciplinares, unidades especializadas e articulação permanente com autoridades financeiras e unidades de inteligência. No plano estrutural, o MPF instituiu o Grupo Nacional de Apoio ao Enfrentamento ao Crime Organizado, para coordenar a atuação dos membros em todo o território, e o Conselho Nacional do Ministério Público criou o Sistema de Inteligência do Ministério Público, voltado à integração de dados e à análise estratégica.
Consequência prática
O anúncio consolida um arranjo institucional que já vinha sendo montado: coordenação nacional das investigações de grande porte e centralização da inteligência. A secretária de Cooperação Internacional do MPF, Anamara Osório, apresentou à assembleia as conclusões da reunião da rede ibero-americana de procuradores contra a corrupção, voltada a casos que favorecem organizações transnacionais em portos, aeroportos e fronteiras.
Por que importa
Cooperação planejada desde o início da investigação muda o material que chega aos autos e, com ele, o trabalho da defesa. Prova produzida no exterior por equipe conjunta, dados de inteligência financeira compartilhados entre países e bloqueios patrimoniais decididos em jurisdições diversas trazem perguntas que a defesa criminal brasileira precisa fazer cedo: qual o instrumento de cooperação utilizado, qual a autoridade que autorizou a medida no país de origem, e como a prova ingressou nos autos. O julgado da Sexta Turma noticiado nesta mesma edição, sobre auxílio direto e competência, mostra que essas distinções já estão produzindo efeito processual concreto.
Próximos passos
- Implantação e regulamentação da atuação do grupo nacional do MPF para enfrentamento ao crime organizado.
- Funcionamento do Sistema de Inteligência do Ministério Público no âmbito do CNMP.