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Pesquisa do CNJ mostra que dois terços das vítimas de feminicídio não tinham medida protetiva contra o autor
O levantamento examinou 10.063 inquéritos e ações penais e concluiu que a Justiça concede as medidas com rapidez, mas alcança poucas das mulheres que vieram a ser mortas.
Agência CNJ de Notícias
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apresentado em 07/08/2026
Reprodução CNJ
Resumo
A pesquisa Feminicídio e Medidas Protetivas de Urgência, apresentada pelo Conselho Nacional de Justiça em 7 de agosto, examinou 10.063 inquéritos e ações penais de primeiro grau ajuizados em 2024 e 2025 com o assunto processual feminicídio. Em 5.144 processos, 51% do total, havia dados da vítima. Desse grupo, 3.449 mulheres, ou 67%, não tinham medida protetiva anterior contra o mesmo réu, e 1.669, ou 32,4%, tinham.
Contexto
Os dados vêm da Base Nacional de Dados do Poder Judiciário, o DataJud. A pergunta que orientou o estudo foi quantas vítimas de feminicídio já contavam com proteção judicial contra o mesmo agressor. A resposta divide o problema em duas partes: a concessão, que é rápida, e o alcance, que é estreito.
Argumentos
- A juíza auxiliar da Presidência Suzana Massako afirmou que a pesquisa permite identificar vulnerabilidades específicas de cada realidade do país.
- O estudo foi apresentado também por Ana Lúcia Aguiar, juíza auxiliar da Presidência, e por Gabriela Soares, diretora executiva do Departamento de Pesquisas Judiciárias.
- Nas ações penais de violência doméstica, dos 225.984 casos novos do período, 98.783, ou 44%, tramitavam em comarcas de municípios com até 100 mil habitantes.
Fundamento
Cerca de 53% das medidas protetivas de urgência são concedidas no mesmo dia do pedido, e entre os casos que terminaram em feminicídio o percentual sobe para 57,6%. A celeridade, portanto, não é o gargalo. Outros recortes mostram onde o sistema perde a vítima antes do pedido: 587 mulheres, 11,4%, já figuravam em outras ações penais ou procedimentos investigatórios contra o mesmo réu sem ter medida protetiva contra ele; 316, ou 6,1%, tinham obtido medida contra outro réu; e 276, ou 5,4%, receberam medida contra o mesmo réu depois do primeiro episódio, o que revela violência que se repetiu.
Consequência prática
O relatório também mede a distribuição territorial. Dos 4.120 casos novos de feminicídio registrados entre maio de 2025 e abril de 2026, 1.973, ou 48%, tramitavam em unidades sediadas em municípios de até 100 mil habitantes. Proporcionalmente, são 3,4 casos novos por 100 mil habitantes nos municípios pequenos contra 1,6 nos grandes, e o acervo pendente segue o mesmo desenho, 8,6 contra 3,6. O recorte usa o município da comarca, e não necessariamente o do crime.
Por que importa
Para quem atua na defesa e na acusação em varas de violência doméstica, o número que muda a conversa é o dos dois terços sem medida anterior: o problema não está na demora do juízo, e sim no que acontece antes de o pedido chegar. O estudo também aponta que as varas exclusivas do Tribunal do Júri têm desempenho melhor, com índice de atendimento à demanda de 103% contra 92% do conjunto das unidades, procedência de 82,7% contra média de 81,3% e prescrição de 1,4%, abaixo da média geral. Especialização, aqui, aparece associada a menos prescrição.
Próximos passos
- O relatório Feminicídios e Medidas Protetivas está disponível na página do CNJ e deve orientar a próxima edição da política judiciária de enfrentamento à violência contra as mulheres.